A Demanda do Santo Graal, possivelmente, uma das mais famosas e populares das novelas de cavalaria, originárias da Inglaterra e da França, é, provavelmente, um manuscrito do século XII. Chrétien de Troyes, que fazia sucesso na corte francesa, escreveu cinco romances sobre os personagens da Távola Redonda e o seu último trabalho teria sido: O Conto do Graal. O autor morreu antes de concluí-lo. Robert de Boron, no final do século XII, desenvolveu o tema Cálice Sagrado, a partir do romance inacabado de Chrétien, ligando-o à tradição arturiana. Uma lenda que, inicialmente foi glosada em versos e pertencia às canções de gesta francesas - poemas medievais cantados em linguagem popular – narrava os feitos heróicos dos reis e de seus cavaleiros e apresentava Percival como cavaleiro que "daria fim à Demanda do Graal".
Essas canções, de caráter noticioso, narravam de perto o acontecido, tendo como predominante o cavaleiro medieval que está diretamente incluído no combate em defesa da Europa Ocidental, sempre instigando a fé cristã e obtendo a aprovação da população em favor do movimento. Por volta de 1220, na França, o tema é colocado em novela e essa lenda, que antes era pagã situa-se como cristianizada; e é transformada em novela de cavalaria, mística e simbólica. Os cavaleiros passavam por situações perigosíssimas para defender o bem e o mal. Percival, anteriormente o escolhido, é substituído pelo cavaleiro Galaaz na busca pelo Santo Graal, transformando alguns símbolos, dentre eles: o Vaso e a Espada, em objetos de valor místico. Em estudos anteriores, verificamos que inúmeras traduções foram feitas para outras línguas, além do latim, francês e inglês, e cada país europeu somou suas próprias lendas às aventuras do Rei Artur e seus cavaleiros.
O tema, estudado, é bastante utilizado nos escritos da literatura e cobiçado entre os críticos literários. Por ser bastante complexo, deixa asas para uma vasta interpretação. Beliza (2001:145) encontra na Demanda do Santo Graal brechas para enfocar a presença feminina no universo cavaleiresco, quando observa que “a mulher representa a passagem para a atividade do cavaleiro como herói combatente e, assim, introduzi-lo a uma das mais relevantes ordens da sociedade medieval: a ordem do terceiro estado”. Ela ainda faz o seguinte comentário: A demanda é a busca da experiência humana com o Feminino enquanto vaso procriador da vida. Buscá-lo, demandá-lo é procurar a nutrição: “abastecer tôdalas mesas [ com o ] manjar “Característica do estágio matricial, o Grande Feminino, representado pelas oposições da vida e da morte, de Eva e da Virgem Maria [...]
Aos olhos de Zilma, escritora paraibana, poetisa e cordelista, a Demanda do Santo Graal é um texto, exclusivamente, de cunho religioso, onde a autora enfatiza com grande exaltação o herói Galaaz na busca pelo Cálice Sagrado – o cálice que Jesus usava na santa ceia.
Não tinha ouro nem prata
O penhor da Caridade
O Cálice da Aliança
Relíquia da Cristandade!
A taça que guarda o sangue
Que salvou a humanidade.
Os cavaleiros, na sua maioria, eram homens voltados para a comunhão, onde apenas um deles, Galaaz, obteve a sua realização. Jovem reconhecido como o "puro dos puros", o próprio Messias, simboliza um novo Cristo, atingindo o fim almejado depois de inúmeras aventuras – algumas relatadas no desfecho do cordel de Zilma Ferreira Pinto - que põem à prova todas as suas virtudes.
Tinha o porte de um Apolo
O rosto de um querubim
A força dos santos mártires
E a proteção de Merlim
Galaaz é o seu nome
E o Santo Graal o seu fim.
( Texto apresentado por mim no 1º Seminário Estadual de Estudos Medievais na UFPB)
quarta-feira, 24 de março de 2010
A poesia popular e a Demanda do Santo Graal
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Um cordel feminino em Santa Luzia
Em pesquisa realizada na cidade de Santa Luzia do Sabugi-PB, em 2007, deparei-me com um cordel da autoria de Judith Jovithe das Neves, natural daquela cidade, que morreu na década de quarenta e deixou um cordel intitulado “A Morte da Inditosa Maria barbaramente assassinada por Lino Goiaba”, poema composto de 85 estrofes de sextilhas com redondilha maior. Este considerado um importante registro, narração de um acontecimento trágico, onde a autora usa a criatividade de um bom repórter jornalístico, sem deixar a cadência da poesia popular, utilizando na sua forma de escrita o popular e o erudito. Segundo a família da poetisa e a irmã da jovem assassinada, da qual trata o poema, a senhora Luzia Araújo dos Santos, que entrevistei no dia 21 de junho de 2008, na cidade de Santa Luzia, o poema foi escrito mais ou menos em 1937, ano em que ocorreu o crime e que a autora estaria na época com uns quinze anos. Seria Judith Jovithe das Neves a primeira cordelista? Vejamos as 1ª e 2ª estrofes do poema acima citado, composto de 85 estrofes de sextilhas que se encontra no Museu Cultural de Santa Luzia:
Leitor ouvi fervoroso
Esta minha narração
Quero contar uma história
Que faz cortar coração
De um crime que um bandido
Fez bem aqui no sertão.
Foi no Riacho da Serra
Este quadro doloroso
Nunca aqui aconteceu
Um crime tão horroroso
Parece que este homem era
Um bárbaro vil criminoso.
Foram raras as mulheres que enfrentaram preconceitos e discriminações e, em forma de gotículas, se aventuraram num mundo exclusivamente masculino e apresentaram a grandiosidade de seus versos desafiando os acordes da realidade. Muitas mantinham ou ainda mantêm os seus louros em manuscrito. Também existem aquelas poetisas que se especializam em fazer versos para serem transformados em grandes hinos políticos: aqui representadas por Rumana de Santa Luzia-PB , que é bastante convidada para compor músicas, utilizando o cordel em benefício dos políticos, não só de sua cidade como também do vale do Sabugi. Também a sua irmã Clarice, que com mais de setenta anos ainda guarda na memória versos que foram utilizados para discursos, feitos pela autora, que segundo seus conterrâneos nunca foi reconhecida como poeta popular, apenas beneficiou os políticos daquela região, seus improvisos impressionam quem a escuta. Francisquinha Medeiros, outra sertaneja, seus cadernos são recheados de poemas que narram a vida de seus familiares; faz questão de registrar a história de cada propriedade pertencente a cada membro de sua família.
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domingo, 28 de fevereiro de 2010
Esta, sim, é um mulherão!
Peço aqui a sua atenção
Para o que vou escrever
Prestar a minha homenagem
E com orgulho dizer
Tem força extraordinária
É batalhador esse ser.
Trabalha de todo jeito
Nada faz se envergonhar
O que importa pra ela
É o seu pão arranjar
Não tem homem neste mundo
Pra com ela comparar.
Quando falo da mulher
Também não posso esquecer
Tem aquelas impulsivas
Que gente, eu vou lhe dizer
Até mancham o nosso nome
Mas isso vamos esquecer.
Quero pensar na mulher
E de sua força falar
Sua grandeza começa
Por Jesus Cristo gerar
Se o homem pensasse assim
Iria nos valorizar.
Destrincho em cada estrofe
De cada uma um poder
Primeiro o de ser mãe
Que nos faz engrandecer
É uma missão tão forte
Só quem é mãe vai saber.
Temos mulher operária
Também mulher enfermeira
Tem mulher comerciante
E também a lavadeira
Temos as advogadas
E juízas de primeira.
Mostro agora a professora
Que seu filho vai educar
Suportando cada uma
Você precisa escutar
Mas às vezes com paciência
Faz esse jovem estudar.
Aliás, a paciência
É da mulher uma virtude
Vive em qualquer ambiente
Mostra a sua magnitude
Muitas vezes por alguém
Acaba a sua juventude.
Tem mulher policial
Chegando a ser delegada
Não tem medo do bandido
E assim bem arrumada
Trabalha no meio dos homens
Sempre bem observada.
Para ser independente
A mulher quer trabalhar
Trabalha fora de casa
Pra o seu dinheiro ganhar
Mas também se preparando
Pro seu trabalho dobrar.
Varre casa, faz comida
Muita roupa pra lavar
Engoma e passa pano
Pra sua casa cheirar
Cuida do marido e filho
E ainda quer trabalhar.
Muito homem não entende
Na mulher esse querer
Ficar só em casa sufoca
Podia o povo entender
Que a mulher também precisa
Com outras pessoas conviver.
Fazer novas amizades
Para muito refrescar
E quando chegar em casa
As tarefas agüentar
Ficar bem pro seu marido
E ter o que conversar.
Esta, sim, merecedora
Do tal termo "mulherão"
Sua bravura é digna
Florido é o seu coração
Nele tem cheias e secas
Os recheios da emoção.
Nelcimá Morais
28/02/10
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Um pedido de perdão à Mãe Natureza
Meu Deus tem piedade
Dos povos desta nação
Agora é tanta tragédia
Com tão grande inundação
As pessoas em desespero
Nos deixando em comoção.
Sabemos que é nossa culpa
O que está acontecendo
Pode ser fatalidade
Mas o que está parecendo
É que é grande o descaso
Do homem que aqui tá vivendo.
Essas chuvas vem caindo
Derrubando sem piedade
Tudo que foi construido,
Pelo homem , com crueldade,
Desabrigando famílias
Com muita agressividade.
Isso tudo acontece
Por uma constante agressão
Do homem pro ecossistema
Que devia ter noção
Do mal que está fazendo
Por causa da ambição.
É um grande desrespeito
O que faz a humanidade
O nosso planeta tem vida
E quer uma possibilidade
De ser sempre a nossa casa
Mas só acha dificuldade.
A nossa Mãe Natureza
Não tem como respirar
Nós a estamos sufocando
Vós podeis observar
Queimadas, lixo, egoísmo
Vão o nosso planeta matar.
O consumismo também
Vem muito favorecer
A gente sempre quer mais
E assim sem perceber
Vamos matando a Terra
Sem condição pra viver.
Perdoa-nos, ó Pai querido,
Por tamanha inundação!
Ajuda ao ser humano
A ter melhor coração
Sabemos que já é tarde
Mas está em vossas mãos.
Nelcimá Morais
Em 02/02/10
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sábado, 30 de janeiro de 2010
Um capeta num forró da Pitombeira

]
(Foto de Nelcimá numa passagem pela Pitombeira. Esta ainda é a calçada do forró, segundo os moradores.)
Eu conto aqui com detalhes
Histórias do meu avô
São coisas da minha infância
Eu lembro bem, sim senhor
Deixou-me muita saudade
Não lembrar é crueldade
Trabalhou feito um trator
II
Foi em busca de aventura
Que achou a sua mulher
Andou do brejo ao sertão
Mas não queria uma qualquer
Chegando no sabugi
Disse logo fico aqui
Vou ver qual moça me quer.
III
Conheceu lá uma jovem
E com ela se firmou
Se era bela eu não sei
Isso ninguém me contou
Seu coração era lindo
Vivia sempre sorrindo
Conquistou o meu avô.
IV
Até que os dois pombinhos
Um belo dia casaram
Queriam formar uma família
E de um lar precisaram
O casal foi procurar
Pra na Quixaba morar
E muitos anos ficaram.
V
O seu cunhado Inácio
Homem de muita valia
Tinha a política no sangue
Disso a gente sabia
Não nasceu pra agricultura
Ver a terra com fartura
Bem de longe ele queria.
VI
Entregou pro meu avô
Sua terra produtiva
Dizendo pra todo mundo
Minha idéia é construtiva
Uma família ali cresceu
Inácio então percebeu
― Acertei na estimativa.
VII
Minha avó que era Chiquinha
Tinha um bom coração
Vivia muito feliz
Com o marido Zé João
Esse era o meu avô
Pois lhe digo sim senhor
Recordar dar emoção.
VIII
Eu guardo bem na memória
Uma estória engraçada
Do seu Chico Pergentino
Por meu pai era contada
Aquele homem farrista
Era o primeiro da lista
Que animava a moçada.
IX
Essa estória se passou
No sítio da Pitombeira
Seu Chico fez um forró
Pra aquela gente faceira
Esse homem não sabia
Do grande tumulto que ia
Assustar a brincadeira.
X
Pra chegar na Pitombeira
Pouco tempo se gastava
Fica perto da Quixaba
Tudo lá se festejava
E quando tinha festança
Se via muita bonança
Bom cavalheiro chegava.
XI
Festa lá durava muito
Muitos dias se dançava
Vinha gente bem de longe
Uma multidão ajuntava
E seu Chico bom festeiro
Trazia um sanfoneiro
Que a freguesia agradava
XII
Num terceiro dia de festa
Apareceu um negão
Dançava com umas moças
Rodava feito pião
Na meia-noite sumiu
Cadê o homem? Ninguém viu
Disseram que ele era o cão.
XIII
O cavalheiro sumiu
Quando foi observado
Seu pé não era de gente
Era um pé bem mudado
Parecia um de morcego
Assim era o pé do nego
Deixou o povo assombrado.
XIV
Foi um tumulto tão grande
Que todo mundo assustou
Seu Chico fazer forró
Nunca mais ele topou
Uma moça que era a dama
Pé de valsa, tinha a fama
Dançar pra ela acabou.
XV
Mas vou dizer a vocês:
Essa estória engraçada
Eu não sei se é de trancoso
Ou se mesmo foi passada
São coisas que “paim” conta
Ela já estava pronta
Por isso não sou culp
XVI
Agora vou lhes falar
Da minha infância com amor
Com grande orgulho lhes digo
Na Quixaba com vovô
Vivi muita coisa boa
Lembranças que não enjoa
De um tempo sedutor.
XVII
Por trás da casa lá tinha
Um belo rio que corria
Aguçando os ouvidos
De quem por ali vivia
Bem no meio das pitombeiras
Muito serena e faceira
Era a água que corria.
XVIII
Quando tava anoitecendo
Todo mundo se sentava
A mando do meu avô
Na calçada escutava
__Voz do Brasil, seu sujeito!
O silêncio era perfeito
Todo mundo respeitava.
XIX
E por falar na calçada
Se contemplava um festeiro
Os vagalumes piscando
Em busca do nosso pereiro
Quanta beleza havia
A lua e as estrelas se via
“Alumiando” o terreiro.
XX
Brincadeira de criança
Era muito diferente
Jogo de pedra era bom
Refrescava a nossa mente
Correr e se esconder
Fazia a gente tremer
Divertia muito a gente.
XXI
Pela manhã, minhas tias
Que no pilão eram feras
Cheias de muito humor
Pegavam logo as tigelas
Não era uma missão qualquer
Pisavam milho e café
Essa era a vida delas.
XXII
Voltando a falar no rio
Quanta coisa me ensinou
De cambalhotas a banho
Ele nunca me poupou
Nadar com a correnteza
O medo, tenho certeza
Minha mãe atormentou.
XXIII
Aquele povo sabido
Não precisava estudar
Muita coisa ele sabia
Não se deixava enganar
Com muita sabedoria
Aquela gente vivia
A ensinar a poupar.
XXIV
Escovar dente com pasta
Quase nunca se usava
O juá pra todo dia
O vovô orientava
Amargando ou não a boca
“O pior é ir pra forca”
Em casa se escutava.
XXV
Outra coisa interessante
Que nunca vou esquecer
A quentura da areia
Pra batata aquecer
Queria eu, minha gente
Ver todo mundo contente
Naquele tempo viver.
XXVI
Foi uma vida agradável
Qualquer criança ia gostar
Vivíamos em harmonia
Ninguém podia negar
Olhar e sentir a pureza
Dessa ilustre natureza
Fazia a gente voar.
XXVII
Vou terminar o cordel
Não por falta de assunto
Quero em outro momento
Falar com amor profundo
Que a minha grande lição
Não veio da escola não
Foi do ensino do mundo.
XXVIII
Esse saudoso registro
Em estrofes de setilhas
Não poderia deixar
De dedicar pra família
Com um jeito informal
Não em forma de edital
Vou deixar pra minha filha.
Mª Nelcimá de Morais Santos –nelcima@hotmail.com
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
O batismo



Aproveito estas imagens
Para um poema formar
Nos reunimos aqui
E fomos comemorar
Aniversário e batismo
Você pode observar.
Numa alegria deslumbrante
Gabrielle se esbaldou
Foi ungida pelo Espírito
Santo que a batizou
Em seguida veio pra casa
E a sua velinha apagou.
Numa pose já desnuda
Ela está se apresentando
Com a sua prima, a mais velha
E a sua vovó babando
Depois com os seus priminhos
Tudo estava lhe agradando.
Bjos de sua titia
Nelcimá
Postado por Nelcima De Morais às 07:10 0 comentários Links para esta postagem
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Um cordel para Helena e Terezinha

Nossa turma bem unida
Resolveu homenagear
Duas pessoas queridas
Que nos faz arrepiar
São exemplos de mulheres
Com muito amor para dar.
Durante nosso convívio
Nunca vimos coisa igual
Uma união deslumbrante
Parecendo amor carnal
Sei que ultrapassam barreiras
Mas de uma forma genial.
Cada uma tem seu jeito
Estão sempre em união
Uma é tímida, bem quieta
A outra sempre em ação
Brinca muito, extravasa
E se amam de coração.
É um prazer para nós
Ver esse amor transbordar
É um amor sem cobrança
Podemos testemunhar
Essa união bem sincera
Deus sempre vai abençoar.
Envolvidas na irmandade
E passando ensinamentos
Helena e Terezinha
Nosso agradecimento
Amem e vivam sempre assim
sempre sem arrependimento.
Estas palavras refletem
E deixam saudades também
Terezinha só sorrindo
E Helena:” Eu beijo bem
Caso e descaso
Não é da conta de ninguém”
Beijos de Nelcimá – 12/09.
Postado por Nelcima De Morais às 13:40 1 comentários Links para esta postagem
